Estamos a chegar ao final de mais um período do ano letivo.
Avaliações feitas, relatórios entregues e rankings publicados.
E, ainda assim, há uma pergunta que continua sem resposta séria, estamos realmente a preparar os jovens para o mundo que ai vem?
O mercado mudou. A pressão aumentou. A velocidade duplicou. A complexidade deixou de ser exceção e passou a ser regra.
E, no entanto, continuamos a formar jovens altamente informados e profundamente despreparados para decidir, comunicar, gerir emoções e lidar com a incerteza.
Os dados não deixam margem para grandes romances:
- A ansiedade e o stress são hoje uma das principais causas de absentismo escolar e académico.
- Jovens chegam ao ensino superior com excelentes notas e enorme dificuldade em falar, decidir, posicionar-se ou lidar com o erro.
- Empresas investem cada vez mais em onboarding emocional, comunicação e soft skills… porque o sistema anterior não o fez.
Isto não é um ataque à escola ou ao ensino.
É um alerta ao sistema. O problema não é o que se ensina. É o que não se ensina.
Ensinamos conteúdos, mas ensinamos clareza mental.
Ensinamos teoria, mas não ensinamos comunicação consciente.
Ensinamos a cumprir e não ensinamos autoliderança, responsabilidade pessoal e tomada de decisão.
O resultado?
Jovens brilhantes, exaustos cedo demais.
Professores sobrecarregados com funções que vão muito além do ensino.
Empresas a tentar corrigir, em seis meses, lacunas que começaram anos antes.
A pergunta certa já não é “se”. É “como”.
Como é que colocamos módulos práticos de competências humanas nas escolas e universidades?
Como é que integramos workshops, palestras e programas estruturados que trabalhem pensamento crítico, comunicação, inteligência emocional e decisão consciente?
Como é que deixamos de tratar estas competências como “extra” e passamos a vê-las como base?
Não falo em substituir currículos. Falo em complementar a formação académica com ferramentas para a vida real e para o auto-conhecimento de cada um com as ferramentas certas para se protegerem para a vida.
Módulos curtos.
Workshops aplicados.
Programas transversais.
Intervenções que falem a linguagem dos jovens sem paternalismo, sem moralismos, sem motivação vazia.
O mercado já percebeu. Falta alinhar o sistema.
As empresas já sabem que competências técnicas, sozinhas, não chegam.
O mercado pede pessoas que saibam:
- pensar sob pressão,
- comunicar com clareza,
- lidar com frustração,
- decidir com consciência,
- assumir responsabilidade.
O paradoxo é este:
o mercado pede, os jovens precisam, os professores sentem e o sistema ainda reage devagar.
No final de mais um ano, é tempo de balanço e de decisões.
Este não é um artigo contra ninguém. É um convite a todos os decisores, instituições, educadores, líderes e sociedade.
Se continuarmos a adiar, o custo será pago em burnout precoce, desistência silenciosa e talento desperdiçado.
Se decidirmos agir, o impacto é geracional.
Preparar jovens para a vida não é ideologia.
É estratégia.
É prevenção.
É responsabilidade coletiva.
Talvez este seja o ano certo para deixar de perguntar “se faz sentido”
e começar a perguntar, o que estamos dispostos a fazer diferente no próximo?
Lidera a tua vida, antes que te liderem a ti.
Adriana Carneiro


