Tenho” sentido na pele”, que o tema, autoliderança assusta e parece que custa ter que admitir que temos que fazer diferentes caminhos para ter diferentes resultados. E talvez seja por isso que falte tanta liderança a sério. O problema nas empresas não é só falta de líderes. É excesso de pessoas a liderar os outros sem se conhecer a si própria.
Fala-se demasiado de liderança.
Fala-se de empatia, de equipas felizes, de comunicação inspiradora, de cultura forte, de propósito, de escuta ativa, de inteligência emocional e de gestão da mudança.
E sim, tudo isso importa e muito.
Contudo, como é que alguém quer liderar pessoas, gerir conflito, inspirar equipas e sustentar mudança… se nem sabe como reage à pressão, ao medo, à rejeição, à crítica ou à incerteza?
É aqui que entra a autoliderança.
Não como moda e não como slogan bonito.
Não como mais uma palavra que o mercado vai usar durante seis meses até aparecer a próxima tendência.
A autoliderança não substitui a liderança.
A autoliderança impede a falsa liderança.
E isto, hoje, é mais urgente do que parece.

Em 2024, o engagement global caiu para 21%, com um impacto estimado de 438 mil milhões de dólares em produtividade perdida. Trazer isto para a linguagem empresarial significa que um líder que esteja desalinhado, quem paga a fatura é a própria equipa.
É um facto que muitos líderes estão cansados, reativos, saturados e emocionalmente vivos, mas continuam a tentar resolver tudo com técnica, processos e reuniões e isso na verdade não chega. Já estive ai desse lado e posso garantir-te, que não é suficiente.
A DDI, no Global Leadership Forecast 2025, baseada em dados de 10.796 líderes e 2.014 organizações, mostra que o novo papel da liderança já não se ganha apenas com execução e resultados. Ganha-se com confiança, crescimento e ligação humana autêntica.
Será que te conheces de facto na forma como lideras a tua vida? Num curso que estou a fazer, foram apresentados estes dados da investigação de Tasha Eurich, que tornou esta contradição muito visível: cerca de 95% das pessoas acreditam que têm autoconsciência, mas apenas 10% a 15% a demonstram realmente. E essa diferença tem impacto direto na decisão, na comunicação, nas relações e na eficácia de liderança.
Perante isto, o mercado está cheio de pessoas convencidas de que sabem liderar, quando na prática ainda não aprenderam a observar-se e sem observação, não há escolha, há impulso e sem consciência, não há clareza, há reação.
Sem autoliderança, muita da chamada liderança transforma-se apenas em controlo com bom marketing.
Eu acredito profundamente na liderança.
Acredito no líder que puxa por outros.
No líder que dá direção.
No líder que sabe decidir.
No líder que protege a cultura.
No líder que comunica com firmeza sem perder humanidade.
Mas também acredito numa verdade que aprendi fora dos livros.
Existiram fases da minha vida em que eu li muito, estudei muito, ouvi muito e percebi muito, em teoria, mas teoria nenhuma nos salva quando estamos desfeitos por dentro, cansados por dentro ou perdidos por dentro.
E eu sei o que isso é. Sei o que é continuar a funcionar por fora e estar em completa desorganização por dentro. Sei o que é ter responsabilidade, ter contas, ter filhos, ter dor, ter exigência e, ao mesmo tempo, precisar de continuar. Sei o que é parecer forte e nem sempre estar inteira.
Foi aí que percebi, não basta saber o que um líder deve fazer, é preciso perceber quem és quando a vida te desafia e e ai, que a liderança real aparece.
A liderança real aparece, na forma como decides, como falas, como escutas, como lidas com os outros e conheces os seus diferentes perfis, como lidas com o erro e na forma como utilizas o “não”.
Aparece, na forma como geres a frustração e como entras numa sala. Na forma como fazes uma equipa sentir-se segura ou em alerta e tudo isto, nasce antes da técnica, nasce na tua identidade.
Por isso acredito, que a auto liderança é um tema estratégico que não deve ser descurado.

Num tempo em que as empresas enfrentam mudança contínua, pressão, aceleração tecnológica e desgaste humano, insistir em líderes brilhantes por fora e cegos por dentro é um risco de gestão. A McKinsey tem reforçado precisamente isto, no contexto atual, qualidades como empatia, confiança e “inner work” deixaram de ser acessórios e passaram a ser parte central da liderança eficaz.
Mais ainda, numa análise com mais de 30 mil colaboradores a nível global, o McKinsey Health Institute concluiu que apenas 57% reportam boa saúde holística, e estima que melhorias consistentes na saúde e bem-estar da força de trabalho poderiam gerar até 11,7 biliões de dólares em valor económico global.
Isto não é “desenvolvimento pessoal” no sentido simplista com que muitas vezes o mercado brinca.
Isto é produtividade, retenção, cultura, execução e sustentabilidade de resultados
Por isso, não, eu não digo que a autoliderança chega para formar um grande líder, o que eu defendo é que sem autoliderança, a liderança fica incompleta e muitas vezes perigosa.
Um líder que não se conhece pode até saber falar bem, mas não sabe o que ativa no outro.
Pode até ter cargo, mas não tem presença, pode até cobrar resultados, mas não sabe gerar confiança e pode até falar de pessoas, mas nunca fez o trabalho duro de se observar a si próprio.
Quem não se lidera, mais cedo ou mais tarde, lidera a partir da carência, do ego, do medo ou da necessidade de controlo e desmorona.
É exatamente aqui que nasce o propósito da marca Faz a Tua Mudança.
Não para desprestigiar a liderança.
Não para vender motivação rápida ou criar gurus, mas para adicionar e acrescentar profundidade àquilo que o mercado trata, tantas vezes, pela rama.
Antes de liderares equipas, mudanças, conflitos, resultados e cultura, há uma pergunta que não podes continuar a adiar:
Quem és tu quando ninguém está a ver?
É aí que a autoliderança começa.
E, quase sempre, é aí que a liderança a sério também.
Se lideras pessoas, equipas ou decisões, se queres liderar a tua própria vida, talvez o próximo passo não seja aprender mais uma técnica, talvez seja começares por te observar com coragem.
Faz a tua Mudança
Adriana Carneiro
www.fazatuamudanca.com
