Na passada semana, fiz o Caminho de Santiago. Cheguei cansada, com dores nas pernas, nos joelhos, nas ancas e com marcas bem visíveis no corpo do esforço físico levada a cabo e ainda por cima, porque não tenho uma grande preparação física.
Curiosamente, e como seria de esperar para mim, o maior impacto não foi o físico, foi mental, humano e espiritual.
Enquanto caminhava, dei por mim a pensar em como fui como líder e em muitas das empresas, equipas, líderes e pessoas que acompanhei ao longo dos últimos anos e até à data, já com a Faz a tua Mudança e com toda a jornada que tem sido feita na minha vida.
A maioria das pessoas quer a transformação, mas poucas estão verdadeiramente disponíveis para o processo que a transformação exige. De facto, vivemos numa sociedade apaixonada por resultados, uma sociedade que quer confiança mas não quer atravessar a insegurança e queremos liderança, sem querer enfrentar a pressão de tomar decisões conscientes e não por impulso.
Todos querem equipas mais comprometidas e evitam as conversas difíceis, falam em monólogos e nem dão oportunidade aos colaboradores de manifestarem as suas opiniões, estratégias ou manifestar diferentes pontos de vista, que em muitos casos, só iriam beneficiar a empresa em que estão integrados.
Queremos crescimento e recusamos o desconforto que o crescimento exige e recusamos o caminho que tem que ser tomado para que esse crescimento se efetive e se torne uma realidade consciente e consistente.
Será que não será por isso que tantas mudanças falham ao 3 e 4 dia?
Já falamos várias vezes que o desafio não e a falta de capacidade é a falta de continuidade, mas o que serve isso senão tomarmos medidas que façam com que essas mudanças se tornem sustentáveis?
Durante o Caminho tive momentos em que me senti forte e tive momentos em que me perguntei porque estava a fazer isto?
Tive momentos em que os quilómetros pareciam intermináveis e momentos em que o corpo pedia para parar e momentos em que o entusiasmo inicial já tinha desaparecido e só restava a dor e a ansiedade de chegar ao KM seguinte.
E é precisamente aqui que a maioria das pessoas desiste, no chamado Vale do desespero….(ensino este vale no Treino Intensivo).
Não é no início, é quando o romantismo acaba, que é exatamente o mesmo que acontece dentro das organizações.
Segundo diversos estudos sobre mudança organizacional, uma parte significativa dos processos de transformação falha não por falta de estratégia, mas pela incapacidade de manter consistência, alinhamento e compromisso ao longo do tempo.
As pessoas começam motivadas e não entendem que a motivação é um recurso emocional…..e recursos emocionais variam.
O que sustenta resultados não é motivação.
É compromisso.
É disciplina.
É continuidade.
É a capacidade de continuar quando já não te apetece.
As empresas querem resultados rápidos e esquecem-se de construir resistência e saber lidar com a adversidade do dia a dia, através do seu estado emocional, através da sua fisiologia ou através do que as outras pessoas transmitem pelos seus comportamentos e reações.
Nos últimos anos tenho observado um fenómeno cada vez mais frequente e que todos assistem também, empresas a investir cada vez mais em estratégias, ferramentas, tecnologia, Inteligência artificial e processos atrás de processos e continuam a negligenciar aquilo que continua a ser o maior fator de sucesso ou fracasso de qualquer organização.
O comportamento humano, a forma como as pessoas comunicam, a forma como lidam com a pressão, a forma como gerem estados emocionais e a forma como enfrentam a adversidade.
Nenhuma equipa cresce de forma sustentável sem resistência emocional ou sem se conhecer porque tem determinados padrões de comportamento ou porque falha resultados de forma sistemática.
Nenhuma liderança se torna forte apenas porque ocupa um cargo e nenhuma mudança acontece apenas porque alguém decidiu que ela devia acontecer.
A mudança acontece quando existe repetição, consistência, prática, treino, reajuste e continuidade.
Tal como nos Caminhos de Santiago.
A lição mais importante não estava em Santiago, estava em cada passo.
Há uma ideia que me acompanhou durante estes dias, nós admiramos quem chega e raramente valorizamos quem continua.
Celebramos o resultado e ignoramos o processo.
O problema é que a vida não se transforma no dia da chegada, transforma-se nos dias em que ninguém aplaude, nos dias em que dói, nos dias em que te apetece desistir e nos dias em que temos de escolher entre recuar ou dar mais um passo.
Quem sabe seja isto que também falte a muitas pessoas, líderes e organizações.
Será que não será preciso menos obsessão pelo destino e mais compromisso com o caminho que tem que ser feito? Fica a questão.
No final destes cinco dias o que retenho, para além de muitas outras coisas, é que as marcas que trouxe nas pernas vão desaparecer, o cansaço também, e aquilo que o caminho me devolveu ficará comigo para sempre.
O que é que tu queres que se mantenha de forma sustentável, consciente e consistente na tua vida, nas tuas equipas e nas tuas empresas?
Lidera a tua vida, antes que te liderem a ti. Treino intensivo da consciência ao resultado dias 26, 27 e 28 de junho
Adriana Carneiro


