O que 135 pessoas, um relatório da Gallup e as minhas próprias contas me ensinaram sobre a distância entre decidir e fazer.
No dia 19 de setembro, 135 pessoas disseram “EU DECIDO” no Taguspark.
No dia 20, sentei-me a fazer contas.
E parei.
Este artigo semanal, que escrevo para mais de 1500 subscritores, não saiu durante treze dias.
Não porque me faltassem ideias, não porque me faltou tempo, mas porque parei, o meu cérebro fez exatamente aquilo que eu explico em palco, perante uma ameaça, protege-se. E, para o cérebro, proteger-se quase sempre significa parar.
Eu, que ensino o passar da decisão à ação, fiquei presa entre as duas.
Conto-te isto porque não sou exceção. Sou a regra e acima de tudo, mesmo com tanto treino mental dia a dia, também paro.
O número que ninguém põe no slide.
Uma meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine analisou pessoas que tinham intenção de mudar um comportamento e quase metade, 47,6%, não o fez. A investigação sobre saúde de Paschal Sheeran já tinha chegado a um valor quase igual, 47%.
Traduzindo estas notas para a minha sala, das 135 pessoas que decidiram, cerca de 64 vão ficar onde estavam e não porque não queiram, mas sim, porque querer nunca foi o problema, o problema é a ação sustentada posterior.
O Vale do Desespero
Entre a decisão e o resultado há um sítio por onde todos passam. Eu chamo-lhe o Vale do Desespero.
Chega ao terceiro ou quarto dia e o entusiasmo da decisão já passou e o resultado ainda não apareceu. E a cabeça começa a dizer: “Afinal isto é difícil. Isto não é para mim.”
É aí que metade desiste, não no início, no meio.
Eu estive lá 13 dias.
Nas empresas, o preço é outro…
O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, diz que o envolvimento dos gestores caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025. Hoje, quem lidera está quase tão desligado como quem é liderado.
E a Gallup repete há anos, 70% do envolvimento de uma equipa depende do seu líder.
Ouço todas as semanas as mesmas frases: “Não querem trabalhar.” “Não ouvem.” “Damos condições e nunca estão satisfeitos.”
Antes de perguntares porque é que a tua equipa não executa, faz outra pergunta: quantas decisões tuas estão, neste momento, à espera de ti?
O líder que decidiu dar feedback em janeiro e ainda não deu não é preguiçoso. Está sem combustível e uma equipa não segue o que o líder decide, segue o que o líder repete.
Uma decisão não muda tudo…
Admiro quem diz que uma decisão muda tudo, mas a minha vida ensinou-me outra coisa.
Em 2014 fiquei viúva, com dois filhos. Em 2023 fechei a empresa que assumi depois da morte do meu marido e fiquei sem dinheiro para comer. Nos dois anos seguintes paguei mais de 200 mil euros de dívidas.
Não foi uma decisão. Foram setecentas manhãs a decidir outra vez.
A decisão abre a porta. É a ação sustentada que te faz atravessá-la.
O que fiz no 14.º dia
Nada de motivação. Quatro gestos simples.
- Dei nome ao que sentia. Não era cansaço. Era o vazio do “e agora?”, depois de meses a trabalhar para um único dia. O que não tem nome governa-nos.
- Separei o resultado de quem sou. Nem tudo corre sempre como desejamos. Isso é um resultado, não uma identidade.
- Mudei a frase interior. De “já devia ter feito” para “o que faço hoje”. A primeira paralisa. A segunda move.
- Marquei uma ação pequena, com dia. “Se é sexta, publico.” Hoje é sexta. A investigação de Peter Gollwitzer chama-lhe plano “se-então”: decidir quando e onde aumenta muito a probabilidade de fazer.
Este artigo é essa ação.
Clareza, identidade, comunicação, plano de ação. É o Método M®, que aplico com líderes e equipas. Desta vez, apliquei-o a mim.
Para quem decidiu e parou.
Se estás no Vale do Desespero, não precisas de mais motivação, precisas de perceber o padrão que te faz parar e treinar o que te faz continuar.
É isso que fazemos em três dias no treino intensivo Da Consciência ao Resultado, de 23 a 25 de outubro, no Parque das Nações. Grupo de 25 pessoas, no máximo.
Ou envia-me uma mensagem privada com a palavra DECIDO e respondo-te pessoalmente.
E deixo-te uma pergunta nos comentários:
Qual é a decisão que tomaste em setembro e que ainda está à tua espera?
Adriana Carneiro, Faz a Tua Mudança®
Fontes:
- Feil, K., Fritsch, J. & Rhodes, R. (2023). The intention-behaviour gap in physical activity. British Journal of Sports Medicine.
- Sheeran, P. (2002). Intention-behavior relations: a conceptual and empirical review. European Review of Social Psychology.
- Gallup (2026). State of the Global Workplace: 2026 Report.
- Gollwitzer, P. & Sheeran, P. (2006). Implementation intentions and goal achievement: a meta-analysis. Advances in Experimental Social Psychology.


